Liliana Oetting
Luciana Franco

Zootecnistas - Novus do Brasil
liliana.oetting@novusint.com
     

Introdução

A água é um dos nutrientes mais importantes(15), desempenhando diversas funções metabólicas no organismo e representando aproximadamente 70% da composição corporal do animal(9). Um animal pode perder praticamente toda sua gordura e quase metade da proteína do corpo e sobreviver, enquanto que uma perda de 1/10 de água resulta em sua morte(9). Apesar da comprovada importância da água no metabolismo animal, muito pouca atenção é voltada para esse nutriente, que pode ter grande influência sobre o desempenho e sanidade dos animais.

 
Como os outros nutrientes, a água é essencial para manutenção de órgãos vitais e reprodutivos.

Importância da Água

A água realiza e participa de inúmeras funções fisiológicas necessárias à vida. As principais funções da água são(10,15):
• Fornecer forma ao corpo através da turgidez da célula;
• Regulação da temperatura corporal;
• Transporte de nutrientes;
• Remoção de resíduos das células;
• Participação de diversas reações químicas que ocorrem no organismo;
• Lubrificação das juntas e articulações;
• Proteção ao sistema nervoso;
• Manutenção do balanço hidrolítico da solução corporal;
• Facilitar a passagem dos alimentos pelo trato gastrintestinal;
• Participação na composição de subprodutos como leite e carne.
A quantidade de água no organismo varia de acordo com a composição corporal: músculo possui maior teor de água que gordura. Por isso que leitões recém-nascidos, que possuem menor quantidade de gordura corporal, possuem mais água em sua composição que animais de 100 kg (80% vs. 50% de água).
Os suínos suprem suas necessidades de água principalmente através de três fontes: (1) água do bebedouro; (2) água existente no alimento (10 a 12%) e (3) água metabólica originada da oxidação dos carboidratos, gorduras e proteínas da dieta(3, 10, 15). Para equilibrar o balanço hídrico, é necessário que a quantidade de água ingerida seja proporcional à quantidade de água excretada. As principais vias de excreção são a urina, os pulmões, as fezes e a pele(3, 10, 15), sendo que a perda de água pela pele dos suínos é praticamente nula devido à ausência de glândulas sudoríparas.
O turnover diário de água no organismo é maior que o de qualquer outra substância, representando 200 mL/L ou 120-130 mL/kg de peso vivo para suínos em crescimento(2). Esse turnover irá determinar a quantidade mínima diária de água para manter o balanço hídrico e atender às exigências do animal.

Exigência de Água para Suínos

Assim como outros nutrientes, o animal tem exigência de água para crescimento, manutenção de tecidos e de órgãos vitais e reprodutivos. Para fêmeas em lactação, a ingestão de água tem grande importância, pois está diretamente relacionada com a produção de leite e desempenho da leitegada (Figura 1) (7).
As consequências de não se atenderem as exigências mínimas de água para suínos são muito severas, podendo acarretar em diminuição do apetite, desidratação, estresse, comportamento agressivo, diminuição do ganho de peso, piora na conversão alimentar, diminuição da produção de leite, além de infecções do trato reprodutivo (cistites e nefrites).

Na prática, pode-se dizer que o consumo médio de água equivale a 10% do peso vivo do animal, mas é muito difícil estabelecer uma recomendação única, pois existem diversos fatores que podem influenciar.

Fatores que Interferem no Consumo de Água

Além das diferenças individuais inerentes dos animais, existem diversos fatores que podem influenciar o consumo de água pelos mesmos, como tipo de dieta, consumo de ração, doença, temperatura ambiental, tipo e vazão do bebedouro e qualidade da água.

Dieta

O teor de proteína e minerais da dieta pode influenciar o consumo de água. Quando o animal é suplementado com uma dieta que possui um teor de proteína que excede a exigência do animal, esse excesso de proteína será metabolizado e excretado na forma de uréia através da urina. Suínos em crescimento suplementados com 25,4% de proteína apresentaram consumo de aproximadamente 1L a mais de água por dia em comparação a dieta com 21,4%(10).
Outro fator que interfere é o nível de sódio e potássio da dieta. A redução no teor de sal de 0,40% para 0,10% promove uma diminuição de 11% no consumo de água e produção de urina de fêmeas em lactação(14). Estudos avaliando o efeito do aumento da concentração de potássio na dieta revelaram que apenas o dobro de sua concentração já foi suficiente para aumentar o consumo de água em aproximadamente 20%(3).

Consumo de Ração

Existe correlação positiva entre o consumo de água e o consumo de ração pelos animais, ou seja, quanto mais ração o animal ingerir, mais água irá beber(15).

Doença

Animais doentes, com diarréia ou em estado febril, por exemplo, apesar de reduzirem o consumo, têm maior exigência de água que animais sadios nas mesmas condições corporais de peso e idade. Nessas situações, como o animal geralmente mantém o consumo mínimo de água, existe uma tendência de usar medicamento via água de bebida para tratar os animais.

Temperatura

O aumento no consumo de água associado ao aumento das perdas urinárias é um excelente mecanismo pelo qual o suíno perde calor corporal, porém a magnitude dessas perdas dependerá da temperatura e da quantidade de água consumida (Tabela 1)(3). Com temperatura ambiental mais elevada haverá maior consumo de água, sendo que esse aumento na ingestão está relacionado com a temperatura da água.

Tipo de Bebedouro

O tipo de bebedouro também pode influenciar a quantidade de água consumida pelos animais. De acordo com a literatura, o bebedouro tipos taça e nível proporcionaram maior consumo de água quando comparado ao bebedouro tipo nipple, (13,6 L e 14,1 L/dia x 12,4 L, respectivamente)(7). No entanto, essa preferência pode variar de acordo com a situação. Em outro estudo verificou-se que os animais passaram a consumir água do bebedouro tipo nipple a partir do momento que o bebedouro tipo taça foi contaminado com restos de ração (Figura 2)(3).

Vazão de Água dos Bebedouros

A utilização da adequada vazão de água nos bebedouros é um fator muito importante na produção suína. A baixa vazão pode limitar a ingestão de água e reduzir o desempenho dos suínos(3) e a alta vazão pode resultar em aumento nos custos, através do desperdício de água e aumento na produção de dejetos. De acordo com a literatura, a vazão mínima de bebedouros varia de 0,2 L/minuto para leitões lactentes a 1-2 L para fêmeas em gestação e lactação(11).

pH da Água

O pH da água não deve ser acima de 8,5 pois pode contribuir para o surgimento de doenças do edema e entupimento da rede hidráulica(4).

Qualidade da Água

Alguns fatores relacionados com a qualidade da água podem interferir no consumo também. A ingestão de água com elevados teores de sulfatos, por exemplo, resulta em maior consumo de água pelos animais no intuito de reduzir a osmolaridade do conteúdo duodenal e diminuir a sensação de sede(17).

Qualidade da Água

A água pode conter uma variedade de microorganismos, podendo ser uma potencial fonte de infecção e transmissão de doenças para suínos(15). A contaminação da água por bactérias patogênicas está geralmente associada com casos de gastroenterite, diarréia, salmonelose, listeriose, giardiose, cólera e hepatite(12). Mesmo assim, geralmente não é dada muita atenção à qualidade da água fornecida aos animais. Em um estudo realizado no sul do Brasil, verificou-se que 72,3% das granjas avaliadas utilizavam água imprópria para consumo dos suínos, sendo que a grande maioria dos produtores não tinha conhecimento deste fato e/ou não faziam limpeza e desinfecção na fonte, no reservatório e/ou no sistema de distribuição por mais de seis meses(4). Mais recentemente foi feita a avaliação da qualidade da água do reservatório e diretamente dos bebedouros de uma granja em São Paulo(1) (Tabela 2). Pelos resultados é possível notar que o nível de contaminação além de ser relativamente alto nos reservatórios pode variar de acordo com o local de amostragem e tipo de bebedouro utilizado, onde bebedouros tipo taça tendem a apresentar mais contaminação por patógenos que o tipo nipple.

Além da qualidade microbiológica da água, deve ser sempre levada em consideração a quantidade de sólidos dissolvidos totais (sulfato, cloreto e bicarbonato de cálcio, sódio e magnésio), o pH (não deve ser acima de 8,5 por exemplo), a dureza da água (presença de carbonato de cálcio não deve exceder 120 ppm), presença de sulfatos que trazem odor desagradável e tem efeito laxativo e a presença de susbstâncias tóxicas aos animais como nitritos e nitratos não podem exceder 440 ppm(10).

Controle da Qualidade da Água

Levando em consideração que a água pode ser fonte importante de contaminação microbiana e pode interferir no consumo e desempenho dos animais, é preciso fazer o monitoramento adequado e a verificação periódica de sua qualidade. Uma das maneiras de fazer isso é através da adição de cloro e uso de ácidos orgânicos na água.

Cloro

O cloro é uma das maneiras mais usuais de controle de microrganismos na água. Entretanto, o grau de eficiência antimicrobiana do cloro depende de alguns fatores como temperatura e pH da água. Temperaturas elevadas reduzem a ação do cloro e pHs mais baixos potencializam a ação do cloro. Para exemplificar, com pH de 5,0 a quantidade cloro na forma ativa é de 100%, enquanto que para pH de 8,0 esse valor reduz para 22%, reduzindo sua eficiência.

Ácidos Orgânicos

Os ácidos orgânicos têm sido cada vez mais utilizados na água de bebida dos animais por apresentarem diversos benefícios além da melhoria da qualidade e redução do pH da água. Diferentemente do cloro, os ácidos orgânicos, além de contribuírem para a redução do pH, também agem no animal contribuindo para a seleção da microbiota benéfica. É importante salientar que esse efeito antimicrobiano não é obtido com uso de ácidos inorgânicos, somente com os orgânicos. Mesmo assim, é fundamental levar em consideração alguns aspectos dos ácidos orgânicos que podem influenciar os resultados:
Tipos de ácidos: nem todos ácidos orgânicos possuem a mesma capacidade antimicrobiana. O ácido fórmico, por exemplo, é reconhecido por ter alto poder antimicrobiano e apresentar benefícios ao animal(13), já o ácido cítrico tem menor ação e precisa de maiores dosagens para ter efeito benéfico(6).

 
A vasão de água, potabilidade e temperatura são fatores muito importantes na produção de suínos.

Combinação de ácidos: combi-nações de ácidos orgânicos são mais eficientes que o uso de um único ácido por apresentarem efeito sinérgico no animal(5,8).
Concentração total de ácidos: existem diversos produtos com diferentes concentrações de ácidos orgânicos, por isso é importante comparar a concentração total de ácidos livres que será fornecida e agirá no animal
Dureza da água: deve ser levada em consideração a dureza da água na recomendação, pois se a água apresentar alta concentração de carbonatos e a concentração de ácidos for baixa, os ácidos orgânicos serão neutralizados e não terão o efeito esperado no animal. O ideal é que o pH final da água com a adição dos ácidos orgânicos fique em torno de 3,5.
Para leitões recém-desmamados, a importância do pH da água é mais evidente porque os animais nessa fase ainda não produzem ácido clorídrico suficiente para realizar a digestão eficiente de proteínas (ativação da pepsina) e formar uma barreira contra microrganismos. O benefício da suplementação de ácidos orgânicos para leitões via água de bebida e junto com a ração foi avaliada em um experimento comercial realizado em São Paulo. Foram avaliados três tratamentos: (T1) controle – ração basal com 40ppm de colistina e 40 ppm de penicilina sem suplementação de ácidos orgânicos, (T2) suplementação de 0,08% de uma combinação de ácidos na água (83% de concentração) determinada de acordo com a dureza da água e (T3) T2 + níveis decrescentes da combinação de ácidos orgânicos na ração (92% de concentração) para leitões dos 21 aos 60 dias de idade. A dose do T3 foi de 5, 4 e 3 kg/t nas fases pré-inicial II, Inicial I e Inicial II, respectivamente. Nesse teste foram utilizados 72 animais (quatro baias com 18 animais) por tratamento e os ingredientes e níveis nutricionais das dietas basais foram os mesmos para todos os tratamentos. Os resultados encontram-se na Tabela 3.

A suplementação da combinação de ácidos orgânicos via água de bebida e ração influenciou positivamente todas as variáveis de desempenho. A combinação de ácidos orgânicos na água e na ração proporcionou maior ganho de peso (16,36 vs. 14,56 kg) e melhor conversão alimentar (1,72 vs. 1,81) que o tratamento controle. Embora não significativo, foi observado maior peso vivo (aumento de 5,04% para T2 e 9,24% para T3 em relação ao controle) e maior consumo de ração para os tratamentos com ácidos orgânicos.

 
A água é um nutriente essencial para o metabolismo animal, devendo estar disponível na altura ideal para cada fase.

O melhor desempenho dos ácidos orgânicos pode estar relacionado com o aumento no consumo de ração proporcionado pelo seu efeito palatabilizante e principalmente pelo efeito benéfico sobre a microbiota intestinal(8). É interessante notar que a combinação dos ácidos orgânicos na água e na ração proporcionou melhores resultados de desempenho que o uso de ácidos na água somente. Isso pode ser explicado pela ação sinérgica da combinação dos diferentes ácidos presentes na água e ração (fumárico, benzóico, fórmico, propiônico e ácido 2-hidróxi-metil-tio-butanóico nesse caso), que proporcionaram um excelente retorno sobre o investimento ao produtor. O custo do tratamento com a combinação de ácidos na água e ração ficou em 185 g de leitão, ou seja, se o animal ganhasse 185g a mais no final do teste já pagaria o investimento, mas como engordou 1,87 kg gerou um retorno 10 vezes maior que o investimento. Para o tratamento somente da água o retorno foi 12 vezes maior (80 g de custo e 1,02 kg de peso final), mostrando que ambos os tratamentos proporcionaram excelente retorno econômico ao produtor.

Considerações Finais

A água é um nutriente essencial ao metabolismo animal e está diretamente relacionada ao desempenho e sanidade dos animais.
Além do controle de todos os fatores que podem influenciar o consumo e a qualidade da água, a utilização de combinações de ácidos orgânicos na água de bebida e ou em um programa com ácidos nos alimentos também pode ser uma ferramenta importante para melhorar a produtividade dos animais.

 

Referências bibliográficas

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