Dr. Antonio Palomo Yagüe
Setna Nutricion – Inzo
Diretor da Divisão Suína
antoniopalomo@setna.com

     
 
Na Espanha são produzidos três tipos de suínos: suínos “verdes” ou magros para consumo in natura, suínos gordos e ibéricos ou “pata negra” destinados à produtos curados.

Introdução

Todos estão cientes da evolução genética de nossos suínos nas últimas décadas, a qual vem repercutindo positivamente nos índices de produção. Na Europa, essas melhorias se refletem, principalmente, no ganho de peso médio diário e no índice de conversão alimentar. No entanto, estamos conscientes de que esses parâmetros sofrem uma ampla influência de muitos outros fatores. Por exemplo o fato desses parâmetros nunca serem iguais, mesmo no caso de suínos nascidos na mesma granja e que recebem o mesmo tipo de alimentação — uma vez que os efeitos das instalações e da época do ano são suficientes, por si só, para provocar variações consideráveis.
Por isso devemos interpretar esse artigo como se fosse uma aproximação às médias de produção que temos atualmente na Europa, mais concretamente na Espanha.

Sistemas de produção

Primeiramente, gostaria de fazer referência aos três tipos de suínos que produzimos na Espanha, que são classificados como:
a) Suínos “verdes” ou magros: sacrificados entre 90 e 95 kg de peso vivo, destinados ao consumo de carne in natura e primando pelo bom rendimento de carcaça. Tanto machos como fêmeas são entregues inteiros (não castrados) no abatedouro. São fruto do cruzamento entre uma linha fêmea Landrace x Large White, em seus diferentes nomes comerciais, tendo como finalizadores os cachaços de alta conformação (Pietrain – Landrace, Large White conformado);
b) Suínos gordos: sacrificados entre 110 e 125 kg de peso vivo, destinados ao consumo de produtos curados (presunto, salsicha, lingüiça) e priorizando a boa qualidade de carne. Há, inclusive, denominações de origem (produtos rotulados – Presunto de Teruel). Nesse caso, os machos são castrados e as fêmeas não. Esse tipo de suíno origina-se do cruzamento de fêmeas Landrace x Large White standard, com cachaços sintéticos industriais ou Duroc;
c) Suínos Ibéricos ou de “Pata Negra“: supostamente uns 10% da produção suína da Espanha, com a particularidade de serem uma raça autóctone de capa negra, exclusiva da Espanha e de Portugal, sendo considerados um produto diferenciado. Dentro dessa categoria há várias linhas genéticas, como o Ibérico Retinto, o Lampiño, o Torbical e o Entrepelado. Com relação a essa categoria de animais, há uma norma de qualidade na qual se define que a fêmea tem de ser Ibérica pura e que o macho pode ser Ibérico, Duroc ou qualquer dos cruzamentos entre esses dois. Há dois tipos básicos de produção: a extensiva e a intensiva. Na primeira, onde os animais são conhecidos como Suíno Ibérico de Bellota ou Montanera, os suínos são alimentados soltos, no campo de bellotas (fruto de alguns tipos de árvores, conhecidas como encinas e alcornoques) e na pastagem, entre novembro e fevereiro, inclusive. Na produção intensiva desses suínos, conhecida como “recebo”, os animais são alimentados com ração, em estrutura similar a do suíno branco. Esses suínos são sacrificados entre 145 e 165 kg de peso vivo, os machos sempre castrados e, ocasionalmente, também as fêmeas. São suínos com alto percentual de gordura e com excepcional qualidade de carne, consumidos tanto in natura como, sobretudo, na forma de curados (presuntos, copas e lombos). Seu valor de mercado é muito superior ao dos dois primeiros grupos.

 
O uso de antibióticos como promotor de crescimento tem demonstrado uma melhoria no ganho médio de peso diário e no índice de conversão alimentar na ordem de 3-5%.

Fatores de influência

A capacidade de consumo voluntário de ração, que é definida pelo sistema nervoso central e o comportamento das diferentes linhas genéticas, são os responsáveis pelas consideráveis variações na base dos parâmetros produtivos e por isso quero tomá-los como ponto de partida.
Desde o dia 1° de janeiro de 2006 foi suprimido o uso de todos os antibióticos promotores de crescimento (carbadox, tilosina, salinomicina, flavofosfolipol, bacitracina de zinco) na Europa e isso deve ser levado em conta se quisermos comparar seus parâmetros produtivos com países onde esses fármacos ainda são permitidos, considerando que estudos realizados determinam melhorias no ganho médio de peso diário e no índice de conversão alimentar da ordem de 3 a 5% .
Todavia, não é menos correto afirmar que, nos últimos anos, os programas nutricionais para suínos de engorda melhoraram claramente, estendendo essa melhoria aos parâmetros produtivos. As medidas habituais voltadas à nutrição, postas em prática dentro de nossas granjas têm sido as seguintes:
1 - Classificação da capacidade de consumo e crescimento dos suínos (deposição de tecido magro);
2 - Balanço de dietas com base na proteína ideal (aminoácidos digestíveis);
3 - Formulação com base na energia líquida do suíno;
4 - Otimização da relação cálcio/fósforo digestível, utilizando fitases (enzimas);
5 - Emprego de complexos enzimáticos (xylanase, betaglucanase, amilase, peptidase);
6 - Incorporação de outros aditivos: probióticos, prebióticos, ácidos orgânicos, óleos essenciais;
7 - Melhorias nos processos de controle de qualidade das matérias primas;
8 - Avanços na tecnologia de fabricação;
9 - Incorporação de sistemas de alimentação líquida (na Europa, mais de 65% dos suínos de engorda);
10 - Melhoria dos sistemas de manejo de programas de alimentação.
O primeiro fator nutricional com grande influência no ganho de peso médio diário (GMD) é o consumo energético. Os aminoácidos são o segundo fator, sem nos esquecermos dos níveis de fósforo, vitaminas e outros micronutrientes.
Os fatores genéticos, sanitários e ambientais intervêm no consumo de alimento, o que determina entre 65 e 80% da variabilidade individual no crescimento diário.
O consumo de ração, nas mesmas linhas genéticas, chega a ser até 30% menor nas provas realizadas a campo, quando comparada a ensaios experimentais.

Energia

Nos leitões há uma relação linear entre a ingestão de energia e o ganho de peso médio diário. Devemos considerar a diferença entre incrementar a densidade energética da ração e o aumento do consumo energético diário. Assim, em fases avançadas de engorda e segundo os fatores anteriormente mencionados, o incremento da densidade energética dará lugar a um decréscimo no consumo de ração, o que nem sempre é igual a uma maior ingestão energética, com maior crescimento diário.

Aminoácidos

Os níveis de aminoácidos – tomando-se como referência a lisina – essenciais para a deposição de tecido magro, dentro dos ganhos de conjunto diários dos tecidos, devem ter uma correta relação com o nível energético das dietas. Assim, a relação adequada lisina/calorias deve ser tomada como parâmetro de referência. É assim que deve ser, já que ao variarmos a concentração energética, o consumo de alimento muda e, portanto, o ganho médio de peso diário também. Desse modo, uma maior concentração energética implica numa maior concentração de aminoácidos na dieta. Essa observação deve ser mais comum em genéticas magras e em condições climáticas adversas. Também deve ser diferente a relação entre machos, fêmeas e animais castrados, em função de sua capacidade distinta de consumo voluntário e de suas necessidades individuais. Um caso a parte merece ser levado em conta, quanto à relação energia/aminoácidos, que são os programas de alimentação para suínos Ibéricos, em função de suas necessidades protéicas serem muito inferiores. Da mesma forma, devemos considerar a referida relação, caso as dietas sejam fornecidas ad-libitum, racionadas, secas ou alimentação líquida.
Em síntese, quando se reduz o consumo diário de alimento em dietas concentradas em energia, deve-se incrementar o percentual de lisina para manter o consumo de gramas de lisina por dia, com base no objetivo de ganho de peso médio diário. Se, quando subimos a energia da ração temos uma resposta positiva no ganho média diário, ainda que se mantenha o consumo médio diário, necessitamos subir os níveis de lisina para continuar aumentando o referido GMD.

 
A utilização de fitase nas rações permite ajustar melhor a relação produtiva de casa fase, possibilitando o melhor indice de ganho de peso diário.

Para otimizar a relação energia/lisina dispomos de quatro métodos básicos, bem conhecidos, que são:
a) Realizar provas de nutrição com diferentes concentrações na dieta, avaliando a resposta dos suínos (considerar genéticas distintas e variáveis produtivas);
b) Classificação dos suínos, estabelecendo a capacidade de deposição de tecido magro e o consumo de alimento. Realiza-se através da medição, com um ecógrafo, da gordura e da musculatura a intervalos regulares, inter-relacionando as mesmas com as curvas de crescimento diário e pesos intermediários. As curvas de consumo devem ser estabelecidas, direta ou indiretamente, com base na estimativa dos requerimentos de energia das dietas para o crescimento do tecido magro, tecido gorduroso e requerimentos de energia de manutenção;
c) Embasado na padronização dos sistemas de classificação, utilizam-se curvas-padrão de crescimento de tecido magro, derivadas das categorias de médias de ganho de musculatura sobre os períodos completos das fases de crescimento e terminação. Considera-se o consumo derivado da melhor relação energia/lisina;
d) Desenvolvimento de equações de regressão, que predizem a relação lisina/energia baseada no peso vivo. Essa relação está muito condicionada ao potencial genético dos suínos.

Minerais

Os níveis de fósforo são importantes para o desenvolvimento ósteo-esquelético, influenciando a mineralização óssea (aproximadamente 80% do fósforo orgânico está nos ossos). Também é essencial o seu papel no crescimento do tecido magro, por intervir na utilização da energia do ATP e na manutenção do equilíbrio eletrolítico. Sabemos que uma relação cálcio/fósforo elevada reduz o consumo voluntário de alimento e, portanto, do ganho médio de peso diário. Atualmente o uso de fitases nas rações permite que ajustemos melhor esta relação em cada fase produtiva, possibilitando que cheguemos mais próximos do melhor índice de ganho de peso diário.

Sistema imunológico

A resposta do sistema imunológico frente aos diferentes patógenos atua sobre as células musculares por diferentes vias, causando uma redução na deposição de tecido magro e provocando um impacto negativo no crescimento do suíno.
A resposta antigênica é maior, nos suínos com elevada deposição de tecido magro, comparativamente aos mais gordos. O estado sanitário de nossas granjas de suínos afeta mais o crescimento magro que o gordo. Pode-se dizer então que, nos suínos mais sadios é possível concentrar mais as dietas, tanto em termos de energia como de aminoácidos, havendo uma melhor correlação com o ganho de peso médio diário.
Os fatores de estresse, tanto sociais (mistura de animais, tamanho do grupo, densidade) como ambientais, reduzem a eficácia do sistema imunológico do suíno e a deposição de tecido magro mais a de gordura, dando lugar a uma redução do ganho de peso médio diário. Aqui é importante considerar também como a seleção genética visando uma maior deposição de tecido magro mudou a fisiologia do crescimento nos suínos, além das respostas aos diferentes estímulos ambientais e sanitários.

Água

Gostaria de fazer menção a outro nutriente essencial na determinação de um ganho de peso médio diário adequado para os suínos, que é a água. Os suínos obtêm a água por três vias bem diferenciadas, nas seguintes porcentagens:

 
A resposta do sistema imunológico frente aos patógenos também causa redução na deposição de tecido magro, provocando retardo no crescimento do suíno.

a) Água de bebida - 83%
b) Água metabólica - 14%
c) Água da ração - 3%
A água é a chave para o consumo de ração por atuar em muitas reações químicas, regular a temperatura interna, servir como meio de transporte de hormônios, mensageiros, enzimas e nutrientes.
Durante o período de engorda o consumo de água aumenta proporcionalmente ao consumo de ração e ao peso vivo, estimando-se uma relação de 2,5 a 3,5 litros de água por quilo de ração, segundo um conjunto de variáveis.
Como todos sabemos, a qualidade da água de bebida é essencial para manter um consumo adequado em cada fase e não influir negativamente no ganho de peso médio diário.
Também devemos levar em consideração a influência da dieta sobre o consumo voluntário de água. Assim, por exemplo, os níveis elevados de proteína bruta dão lugar a um maior consumo de água (entre 10 e 20 % a mais, segundo os níveis). Em suínos de engorda, uma redução dos níveis de proteína bruta, com um incremento dos níveis de aminoácidos sintéticos, não determina mudanças no consumo de água.
Além disso, gostaria de apontar outra série de fatores que têm influenciado nos parâmetros produtivos de engorda para chegar ao ponto em que estamos hoje:
a) Dietas mais digestíveis para os leitões, após o desmame, além de instalações e condições ambientais melhoradas, o que resulta em animais mais pesados às 8 e 10 semanas de vida, momento em que são transferidos ao setor de engorda, reduzindo assim os dias de permanência no mesmo;
b) Manejo: a mão de obra das granjas está cada dia mais profissional, o que sem dúvida favorece a obtenção de melhores índices;
c) Sanidade: na Europa, desde 1991, sofremos um agravamento dos problemas respiratórios nos suínos de engorda pela presença do vírus da Síndrome Respiratória e Reprodutiva Suína (SRRP na Europa ou PRRS na América) e do Circovírus Suíno do tipo 2 (PRCAD ou PMWS), além de um incremento nas patologias digestivas, como conseqüência da supressão dos antibióticos promotores de crescimento (APC ou GPA), que não têm feito outra coisa senão penalizar, por esta via, os índices zootécnicos, fazendo-nos perder, em muitos casos, todas as melhorias derivadas do restante dos fatores de influência.

Parâmetros produtivos

Dentro dos índices zootécnicos nos suínos de engorda, gostaria de estabelecer dois grandes grupos, tanto em nível acadêmico, como do ponto de vista econômico. Assim, vejamos:
Grupo I:
• Ganho de peso médio diário
• Índice de conversão alimentar
• Consumo de ração médio diário
Grupo II:
• Mortalidade
• Suínos atrasados – caudas
• Custo terapêutico
• Dias de permanência no setor de engorda.
Alternância entre local e ano, ou quilos produzidos por local de engorda e ano.

Do ponto de vista financeiro, a fase de engorda contempla de 50 a 60 % do custo final de produção e corresponde a 65 - 75 % do gasto com alimentação, em uma granja de ciclo completo. Desde meados de 2007 e até março de 2008, o custo de alimentação tem sido incrementado consideravelmente, já que passamos de um custo médio de ração de engorda, de 190 a 240 €/Tonelada (1 € = 1,48 dólares americanos).
Do mesmo modo, nosso custo médio por quilo produzido passou de 0,90 -1,00 € a 1,05 -1,20 €/kg de peso vivo.
Os dados médios de produção que coloco a seguir estão baseados em um peso inicial da sua entrada no setor de engorda, estabelecido como sendo de 20 quilos de peso vivo.
Para colocar esses dados à disposição de uma forma clara e precisa permitam-me organizá-los em uma tabela para que fique mais fácil seu entendimento e sua interpretação, conforme pode ser visualizada na tabela acima.

 
 
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